sábado, 7 de janeiro de 2012

O Violinista no Metrô



Aconteceu em janeiro. O jornal Washington Post convidou um dos maiores violinistas do mundo, Joshua Bell, para tocar numa estação de metrô da capital americana a fim de testar a reação dos transeuntes. Desafio aceito, lá foi Bell, de jeans e camiseta, às 8 da manhã, o horário mais movimentado da estação, para tocar no seu Stradivarius de 1713 (avaliado em mais de três milhões de dólares) melodias de Bach e Schubert.

Passaram por ele 1.097 pessoas. Sete pararam alguns minutos para ouvi-lo. Vinte e sete largaram algumas moedas. E uma única mulher o reconheceu, porque havia estado em um de seus concertos, cujo valor médio do ingresso é cem dólares. Todos os outros usuários do metrô estavam com pressa demais para perceber que ali, a dois metros de distância, tocava um instrumentista clássico respeitado internacionalmente.

Não me surpreende. Vasos da dinastia Ching, de valor incalculável, seriam considerados quinquilharias se misturados a quaisquer outros numa feira de artesanato ao ar livre. Uma jóia do Antônio Bernardo correria o risco de ser ignorada se fosse exposta numa lojinha de bijuterias, uma gravura de Roy Lichtenstein seria considerada amadora se exposta numa mostra universitária de cartoons, e ninguém pagaria mais de quarenta reais por uma escultura do mestre Aleijadinho que estivesse misturada a anjos de gesso vendidos em beira de estrada.

Desinformados, raramente conseguimos destacar o raro do medíocre. Só é possível valorizar aquilo que foi estudado e percebido em sua grandeza.
Se eu não me informo sobre o valor histórico de uma moeda que circulava na época dos otomanos, ela passa a ser apenas uma pequena esfera enferrujada que eu não juntaria do chão.
Se eu não conheço o significado que teve uma muralha para a defesa dos grandes impérios, ela vira apenas um muro passível de pichação.
Se não reconheço certos traços artísticos, um vitral de Chagall passará tão despercebido quanto o vitral de um banheiro de restaurante.

Podemos viver muito bem sem cultura, mas a vida perde em encantamento.
Essa história do violinista demonstra que não estamos preparados para a beleza pura: é preciso um mínimo de conhecimento para valorizá-la. E demonstra também que temos sido treinados para gostar do que todo mundo conhece.

Se uma atriz é muito comentada, se uma peça é muito badalada, se uma música é muito tocada no rádio, estabelece-se que elas são um sucesso e ninguém questiona. São consumidas mais pela insistência do que pela competência, enquanto que competentes sem holofotes passam despercebidos.

Gostaria muito de ter circulado pela estação de metrô em que tocava Joshua Bell. Não por admirá-lo: pra ser franca, nunca ouvi falar desse cara. O que eu queria era testar minha capacidade de ficar extasiada sem estímulo prévio. Descobrir se ainda consigo destacar o raro sem que ninguém o anuncie. Tenho a impressão de que eu pararia para escutá-lo, mas talvez eu esteja sendo otimista. Vai ver eu também passaria apressada, sem me dar conta do tamanho do meu atraso.

Martha Medeiros
*****

Assista ao video:



Nota: Provavelmente, eu teria parado para ouvi-lo, pois sou simplesmente apaixonada por violinos e violoncelos. Mas assim como Martha Medeiros mencionou, confesso que eu também não o teria reconhecido.
Algumas vezes, tive a oportunidade de parar por um tempo e escutar um artista de rua tocar violino, na saída do metrô Bigadeiro, na av. Paulista. Foram minutos bem gratificantes!

Doces beijos!

3 comentários:

Canela Castela disse...

Ola Cici, olha concordo muito com o seu comentario. Eu tambem não o teria reconhecido...
Acho que Marta foi feliz em sua observação, e sua frase : "sem cultura a vida perde o encantamento" é verdadeira.
Eu vou acrescentar mais ainda: a correria do dia dia muitas vezes nos fazem perder detalhes valiosos em nossa vida!
Volte sempre em meu blog.
Beijos de luz e bom findi!

ღღღღ Cici ღღღღ disse...

Super verdade, Andreza!
Vou hj mesmo ao seu blog, q eu amo!!
No findi fiquei sem acesso, e o Speedy me fez o favor de me deixar sem conexão em casa tb... aff!

Uma ótima semana, e uma ótima segunda sem carne (já viu o meu post de hj? rs)
Bjks

Canela Castela disse...

Acabei de comentar la amiga Cici...
E olha ficar sem internet hj em dia não dá!!!!!
O meu aqui é Net.
Ainda, por enquanto tudo bem, vamos ver ne?
Bjos querida

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